As palavras “culto” e “cultuar” são traduções de termos gregos que, literalmente, significam “serviço” e “servir” a Deus.1 Com efeito, há diversos versículos onde latreía e latreúō são traduzidos de modo mais literal, como vemos em destaque nos exemplos a seguir:
“Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus.”
João 16:2 – versão ACF
“Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, me é testemunha de como incessantemente faço menção de vós”
Romanos 1:9 – versão ACF
No entanto, em certas passagens do NT esses termos gregos são traduzidos como “culto”, “cultuar” ou “adorar” – palavras que podem transmitir a ideia de uma reunião religiosa. Porém, o sentido de serviço religioso existe somente nas passagens que se referem ao templo de Jerusalém e ao serviço sacerdotal (Lc 2:37; At 7:42; Rm 9:4; Hb 8:5; 9:1,6,9; 10:2; 13:10). Em todas as demais ocorrências o termo grego latreía melhor seria traduzido como “serviço”, e o verbo correspondente latreúō como “servir”, devido ao seu sentido original.2 Esse cuidado evitaria a ideia errônea de que o serviço a Deus signifique apenas a realização de uma reunião religiosa – tal como hoje se pensa quando alguém fala em “culto”.
Os apóstolos compreenderam corretamente que o serviço a Deus compreende a nossa vida por completo, não se limitando ao que ocorre durante uma reunião em nome de Jesus. Esse é o motivo pelo qual não existe qualquer ensinamento de Cristo, ou mesmo dos apóstolos, obrigando que se realizem cultos, pois para eles o culto a Deus deve ser toda a nossa vida, e não apenas duas horas aos domingos, por exemplo. Isso não quer dizer que não houvesse reuniões cristãs, ou que fosse errado fazê-las, mas apenas significa que o serviço a Deus não se limita ao congregar, mas diz respeito a todo o viver do crente. Eis o motivo por que os apóstolos deixaram orientações como estas: “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para os homens” (Cl 3:23). “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus.” (1Co 10:31). “Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver” (1Pe 1:15). “Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou.” (1Jo 2:6).
É muito significativo percebermos que, ao invés de estabelecer a obrigatoriedade de cultos religiosos, Jesus Cristo nos ensinou que o verdadeiro serviço a Deus consiste na prática dos seus ensinamentos, e não em apenas chamá-lo de Senhor e dizermos o quanto o amamos (Mt 7:21-27; Lc 6:46-49; Jo 14:23-24). Logo, o verdadeiro serviço, ou culto a Deus não tem a ver com sacrifícios religiosos, mas inclui atitudes de compaixão e misericórdia para com o próximo (Mt 12:7; Tg 1:27) – algo tão agradável ao Senhor a ponto dele dizer: “Foi a mim que fizestes” (Mt 25:40).
Nesse mesmo sentido, o “culto racional” mencionado em Romanos 12:1 nada tem a ver com culto religioso, mas diz respeito ao nosso proceder para com o próximo. Portanto, o nosso “serviço racional” deve ser um ato consciente de vivermos para Deus, onde renunciamos à nossa vontade para andarmos como o Senhor nos ensinou. Isso fica evidente na leitura do restante do capítulo, onde Paulo esclarece qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus, tanto no relacionamento entre os irmãos (Rm 12:2-16), quanto no trato para com todas as pessoas (12:17-21).
1. Em quase todas as ocorrências do Novo Testamento os termos gregos λατρεία (latreía) e λατρεύω (latreúō) dizem respeito ao serviço do homem a Deus, havendo somente duas passagens onde o verbo latreúō refere-se ao homem servir a falsos deuses: Atos 7:42 e Romanos 1:25.
2. Dicionários de grego do Novo Testamento apresentam “culto” e “cultuar” como traduções secundárias para λατρεία (latreía) e λατρεύω (latreúō), respectivamente. Porém, tal opção secundária existe apenas devido à influência do seu uso recorrente nas traduções do NT para o português.