Apocalipse 2–3
A presente análise não diz respeito a uma questão de tradução, mas de interpretação. No entanto, como ela também envolve o problema da hierarquização na igreja, tivemos que inclui-la em nosso estudo. Trata-se, especificamente, de quem seriam os “anjos” mencionados nos capítulos dois e três de Apocalipse. O entendimento majoritário atual é o de que esses anjos seriam os “líderes” das igrejas, sejam eles pastores, presbíteros etc. Essa interpretação, evidentemente, resulta em tais pessoas serem vistas como seres angelicais e, portanto, superiores aos demais irmãos.

“Ao anjo da igreja, escreve...”

Sabemos que cada uma das sete cartas do Apocalipse foi destinada ao respectivo anjo de cada igreja (2:1,8,12,18; 3:1,7,14). Embora a palavra “anjo” seja uma transliteração do grego ἄγγελος (angelos), que significa “mensageiro”, há três motivos para que os anjos de Apocalipse 2 e 3 não possam ser interpretados como mensageiros humanos, como se fossem carteiros. Em primeiro lugar, porque a literatura apocalíptica judaico-cristã sempre utilizava o termo “anjo” para se referir a um ser espiritual, e não a um ser humano; segundo, porque muitos outros anjos aparecem ao longo do Apocalipse, e todos eles são seres espirituais; e, terceiro, porque os anjos das igrejas já haviam sido mencionados na visão que João teve do Filho do homem, sendo eles próprios as sete estrelas dos sete castiçais, isto é, das sete igrejas (Ap 1:13,20). Ora, se esses anjos fossem meros mensageiros humanos, encarregados de levar a mensagem para cada igreja, eles não poderiam corresponder às sete estrelas à destra do Filho do homem. Logo, à luz de todo o contexto de Apocalipse, os anjos mencionados nos capítulos dois e três são anjos mesmo, ou seja, seres espirituais da parte de Deus.

A interpretação mais antiga

No judaísmo do séc. I era comum a crença de que cada comunidade ou mesmo indivíduo tinha um anjo protetor. Assim, “ao anjo da igreja em Éfeso” significaria escrever à representação celestial daquela igreja, o seu guardião espiritual. Essa é a interpretação mais antiga encontrada entre alguns dos chamados “pais da Igreja” (por exemplo, Orígenes e Tertuliano) e faz sentido dentro do ambiente apocalíptico, onde anjos são mensageiros e intermediários. A partir do século IV aparecem leituras mais simbólicas, entendendo que cada anjo simbolizava o “espírito coletivo” de cada igreja. Foi somente ao longo da Idade Média que, em alguns comentários latinos, começou a surgir a associação desses anjos com bispos (não exatamente “pastores” no sentido evangélico moderno, mas o líder episcopal).

Conclusão

Podemos concluir com um questionamento bastante razoável. Se alguém pudesse ser chamado numa congregação de “anjo da igreja”, por que não há um só discípulo de Cristo sendo chamado dessa forma no livro de Atos ou nas epístolas? Ora, se nem os apóstolos foram tratados dessa maneira, ninguém deveria aceitar sobre si mesmo essa designação angelical. Ainda que alguém tenha recebido da sua congregação uma posição de máxima autoridade, isso não o torna menos humano que os demais. Cabe lembrar do exemplo de Paulo, o qual declarou aos que quiseram exaltá-lo como um deus: “Senhores, por que fazeis essas coisas? Nós também somos homens como vós, sujeitos às mesmas paixões, e vos anunciamos que vos convertais dessas vaidades ao Deus vivo, que fez o céu, e a terra, o mar, e tudo quanto há neles.” (Atos 14:15).

Escrito por Alan Capriles
Publicado em 15/09/2025

Sobre o autor: Alan Capriles é um seguidor de Cristo sem rótulo denominacional, pesquisador independente do Novo Testamento e da história do cristianismo. Dedica-se a ensinar o evangelho e a compartilhar gratuitamente suas pesquisas, sem vínculo institucional e com respeito a todas as denominações. Ele agradece qualquer forma de apoio para que possa continuar se dedicando integralmente às pesquisas, ao compartilhamento de suas descobertas e ao auxílio gratuito àqueles que desejam congregar de maneira simples e edificante em Cristo.
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