DIÁCONO

Grego: διάκονος (diákonos) | Strong: G1249

30 ocorrências: Mt 20:26; 22:13; 23:11; Mc 9:35; 10:43; Jo 2:5,9; 12:26; Rm 13:4(2x); 15:8; 16:1; 1Co 3:5; 2Co 3:6; 6:4; 11:15(2x),23; Gl 2:17; Ef 3:7; 6:21; Fp 1:1; Cl 1:7,23,25; 4:7; 1Ts 3:2; 1Tm 3:8,12; 4:6.

A palavra grega διάκονος (diákonos)1 é um substantivo masculino que designa “aquele que executa um serviço”, derivando do verbo διακονέω (diakonéō),2 que significa “servir” ou “atender”, bem como do substantivo correlato διακονία (diakonía),3 usado no Novo Testamento para indicar o próprio ato ou função do serviço. No contexto neotestamentário, diákonos não expressa um título honorífico nem um cargo clerical formal, mas a ideia funcional de serviço prestado em favor de outros. Somente de modo progressivo, ao longo do período patrístico, passou a ser empregado como título oficial, à medida que se desenvolveu uma hierarquia eclesiástica — inexistente na igreja do primeiro século.

“Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo [διάκονος, diákonos], e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir [διακονέω, diakonéō] e dar a sua vida em resgate por muitos".
Mateus 20:26-28 (NVI)


Transliteração que gera confusão

A noção equivocada de compreender o grego διάκονος (diákonos) como um cargo eclesiástico decorre, em parte, da sua transliteração4 para “diácono” em somente três versículos do Novo Testamento (Fp 1:1; 1Tm 3:8,12). Tal procedimento cria a falsa impressão de um título, mas que era inexistente no texto grego. Se diákonos sempre fosse traduzido literalmente, por “servo” ou “servidor”, essa confusão não ocorreria.

Exemplos no Novo Testamento

Essa dificuldade torna-se ainda mais evidente quando observamos passagens em que Paulo se identifica como διάκονος (diákonos), mas os tradutores optam por vertê-lo como “ministro”, bem como em Romanos 16:1, onde Febe é chamada de diákonos da igreja em Cencreia e, na maioria das versões, o termo é traduzido por “serva”. Em ambos os casos, a transliteração como “diácono” ou “diaconisa” sugeriria um cargo institucionalizado, enquanto o texto grego afirma simplesmente uma função de serviço. De modo significativo, a aplicação do termo a Febe expõe a inconsistência tradutória: quando o referente é um apóstolo, prefere-se “ministro”; quando se trata de uma mulher, opta-se por “serva”, ainda que o vocábulo grego seja o mesmo. Padrão semelhante se observa em textos onde diákonos é aplicado a autoridades civis (cf. Rm 13:4), o que demonstra que seu significado não é inerentemente eclesiástico. Diante disso, a tradução por “servo” ou “servidor” mostra-se semanticamente mais fiel e consistente do que a transliteração “diácono” ou a tradução carregada por “ministro”.

O caso de Atos 6

O texto de Atos 6:1-6 é frequentemente invocado para fundamentar a origem do chamado ofício de diácono; contudo, uma leitura atenta do grego revela que o termo διάκονος (diákonos) sequer aparece na passagem. O vocábulo empregado é διακονία (diakonía), utilizado tanto para descrever o cuidado cotidiano das mesas (διακονία τῶν τραπεζῶν, v. 2) quanto para a atividade dos próprios apóstolos, que se dedicaram ao ofício da palavra (διακονία τοῦ λόγου, v. 4). É significativo notar que, quando diakonía se refere aos apóstolos, muitas traduções optam por vertê-lo como “ministério”,5 ao passo que, no mesmo contexto, o termo aplicado a servir às mesas é traduzido como “serviço”. Tal distinção tradutória pode transmitir ao leitor moderno a ideia de uma superioridade hierárquica dos apóstolos sobre os demais irmãos, quando o texto grego expressa, em ambos os casos, a mesma noção de serviço humilde prestado por amor a Cristo. Assim, Atos 6 não estabelece uma distinção hierárquica entre dois “ofícios”, mas entre diferentes formas de serviço exercidas na mesma comunidade. Se o simples uso de diakonía fosse suficiente para definir um grupo como “diáconos”, então os apóstolos também deveriam ser assim chamados, uma vez que igualmente exerciam diakonía, embora numa diferente atuação. Portanto, a identificação dos sete escolhidos em Atos 6:1-6 como diáconos, no sentido de título e cargo hierárquico, não deriva do texto de Atos, mas de uma leitura anacrônica, influenciada por desenvolvimentos eclesiásticos posteriores.

O caso de 1 Timóteo 3

Mesmo em 1 Timóteo 3:8-13, onde διάκονος (diákonos) aparece em um contexto de serviço comunitário, o termo não adquire o sentido de um ofício clerical, como nos moldes posteriores. Trata-se apenas de uma exortação destinada a todos que servem ou desejam servir na execução de alguma tarefa na congregação. Em resumo: que os servos sejam irrepreensíveis, dando bom testemunho de Cristo. Ora, isso é muito diferente do estabelecimento de um título honorífico e posição de superioridade – algo inventado após o período apostólico e jamais ensinado no Novo Testamento. A leitura anacrônica de 1 Timóteo 3, ou seja, sob a influência de desenvolvimentos eclesiásticos posteriores, é que projeta sobre o texto uma estrutura hierárquica que o próprio texto não exige e que tampouco havia na igreja do primeiro século.

Influência na tradução

Em diversas passagens do Novo Testamento, o termo διάκονος (diákonos) não foi nem traduzido como “servo”, nem transliterado como “diácono”, mas vertido por “ministro”. Tal escolha é significativa, pois revela o modus operandi de tradutores condicionados pelo sistema hierárquico. De modo consistente, essa escolha ocorre justamente nas passagens em que Paulo se refere a si mesmo ou a seus cooperadores como diákonos, a saber: Ef 3:7; 6:21; Cl 1:7,23,25; 4:7; 1Ts 3:2; 4:6. A transliteração parece ter sido evitada para que o leitor não percebesse que “diácono” não designava, no contexto paulino, um cargo eclesiástico distinto. Afinal, como poderia Paulo, sendo apóstolo, declarar-se diácono? Ou como poderia aplicar esse termo a Timóteo? Do mesmo modo, a tradução por “servo” foi preterida, ao passo que “ministro” introduz uma conotação de distinção e prestígio, contribuindo para a manutenção de uma leitura hierarquizada da igreja, como se Paulo e seus cooperadores ocupassem uma posição superior à dos demais irmãos.

Conclusão

A análise do uso neotestamentário de διάκονος (diákonos), bem como de seus termos correlatos διακονέω (diakonéō) e διακονία (diakonía), revela um campo semântico consistentemente orientado pela ideia de serviço, e não pela noção de status, cargo ou hierarquia eclesiástica. No Novo Testamento, diákonos designa aquele que serve, seja em contextos práticos, espirituais ou mesmo civis, sem implicar, por si só, um ofício clerical formal. A aplicação do termo a apóstolos (1Co 3:5; 2Co 3:6; 6:4; 11:23; Ef 3:7; Cl 1:23,25), cooperadores (Ef 6:21; Fp 1:1; Cl 1:7; 4:7; 1Ts 3:2; 1Tm 3:8,12; 4:6), mulheres (Rm 16:1), civis (Mt 22:13; Jo 2:5,9; 12:26; Rm 13:4), aos servos de Satanás (2Co 11:15), ao próprio Cristo (Rm 15:8; Gl 2:17) e a todos os seus discípulos (Mt 20:26; 23:11; Mc 9:35; 10:43) demonstra que sua função é descritiva e funcional, não institucional. A posterior consolidação do termo “diácono” como título e cargo oficial pertence ao desenvolvimento histórico da igreja pós-apostólica e não pode ser retroprojetada sobre o vocabulário do primeiro século sem incorrer em anacronismo. Assim, a fidelidade ao texto grego exige que διάκονος (diákonos) seja lido à luz de seu contexto original, como expressão de serviço humilde prestado por amor a Cristo e à comunidade, e não como marcador de hierarquia.


Notas

1. “Diákonos: (em português, "diácono''), denota primariamente “criado”, quer aquele que faz trabalhos servis, ou o ajudante que presta serviços voluntários, sem referência particular ao seu caráter. A palavra está provavelmente relacionada com o verbo dioko, "apressar-se após, perseguir'. (talvez dito originalmente acerca de um corredor). "Ocorre no Novo Testamento em alusão aos criados domésticos (Jo 2:5,9): ao governante civil (Rm 13:4): a Cristo (Rm 15:8: Gl 2:17): aos seguidores de Jesus em sua relação com o Senhor (Jo 12:26: Ef 6:21 ; CI 1:7: 4:7); aos seguidores de Jesus em relação uns com os outros (Mt 20:26; 23:11; Mc 9:35; 10:43); aos servos de Cristo no trabalho de orar e ensinar (1 Co 3:5: 2 Co 3:6; 6:4; 11:23; Ef 3:7: CI 1:23,25: 1 Ts 3:2; 1 Tm 4:6): àqueles que servem nas igrejas (Rm 16:1 [usado acerca de uma mulher só aqui no Novo Testamento]; Fp 1:1; 1 Tm 3:8,12): aos falsos apóstolos, servos de Satanás (2 Co 11:15). O termo diákonos é usado uma vez onde, aparentemente, a referência é aos anjos (Mt 22:13); em Mt 22:3, onde a referência é aos homens, o termo doulos é usado" (extraído de Notes on Thessalonians, de Hogg e Vine, p. 91). O termo diákonos deve, falando de modo geral, ser distinguido do termo doulos, “servo, escravo”; o termo diákonos encara o servo em relação ao seu trabalho; o termo doulos o vê em relação ao seu mestre. Veja, por exemplo, Mt 22:2-14; aqueles que chamam os convidados e os trazem (Mt 22:3,4,6,8,10) são os douloi; aqueles que executam a sentença do rei (Mt 22:13) são os diakonoi. Nota: Quanto aos termos sinônimos, leitourgos denota “aquele que executa deveres públicos”; misthios e misthõtos, “servo contratado”: oiketes, “servo doméstico”; huperetes, “funcionário subordinado que serve seu superior'” (designava, originalmente, o remador da fileira de baixo numa galera de guerra); therapon, “aquele cujo serviço é o de liberdade e dignidade”. Os denominados “sete diáconos” em At 6 não são mencionados por esse nome, embora o tipo de serviço no qual estavam engajados era do caráter daquele consignado para tal.” Dicionário Vine (CPAD, 2002).

2. “Diakonéō: Essa palavra para serviço, que se distingue de douleúo (servir na função de escravo), therapeúõ (servir por vontade própria), latreúõ (servir por pagamento) e leitourgéõ (prestar um serviço público), conota a nuança básica de serviço pessoal. Diakonéo fora do NT: 1. O conceito concreto é basicamente; a. “servir à mesa”; b. “cuidar de”; e c. (de modo compreensivo) “servir”. Para os gregos o serviço é indigno. Nascemos para governar, não para servir. O serviço tem valor apenas quando promove o desenvolvimento pessoal, ou o desenvolvimento do todo, como o serviço ao Estado (ou em última instância o serviço a Deus). Mesmo que isso exija certa medida de renúncia, a ideia de serviço sacrificial não é comum. 2. No pensamento judaico o serviço não é algo indigno, portanto, uma compreensão mais profunda é desenvolvida. A LXX não usa diakoneín, mas leitourgeín, latreúein e até mesmo douleúein. Filo usa diakoneín para “servir”, com certo sentido de servir à mesa. Josefo usa o termo para “servir à mesa”, “obedecer” e até mesmo “exercer serviço sacerdotal”. O mandamento para amar o próximo fornece uma base sólida para o serviço sacrificial, mas no judaísmo posterior ele tende a ser enfraquecido pela distinção entre os justos e os injustos e pela natureza não sacrificial, mas meritória do serviço.” Dicionário Teológico do Novo Testamento - vol. I, 2013, Editora Cultura Cristã. Organizado por Gerhard Kittel e Gerhard Friedrich e condensado por Geoffrey W. Bromiley (Cultura Cristã, 2013).

3. “Diakonía: (1) No NT essa palavra significa primeiramente “servir à mesa”, “prover o sustento físico” ou “supervisionar refeições”(Lc 10:40; At 6:1).
(2) Um sentido mais amplo é “executar um serviço de amor”. A diakonía de Estéfanas é um exemplo (1Co 16:15). Ele está ligado a obras, fé, amor e paciência em Ap 2:19. Tudo que edifica está implícito em Ef 4:11-12. Existem vários ministérios [serviços, diakonía] (1Co 12:4ss), mas todos são feitos para Deus. Diakonía é mencionado entre prophêteía e didaskalía em Rm 12:7, mas a pregação é em si mesma diakonía em At 6:4, ou seja, o oferecimento do evangelho como pão da vida. Pregadores, portanto, têm um ministério [serviço, diakonía] de reconciliação (2Co 5:18-19). Os anjos são exemplos (Hb 1:14). Se tentar viver pela lei é o ministério [serviço, diakonía] da morte, a fé no evangelho é o ministério [serviço, diakonía] do Espírito ou da justiça (2Co 3:7ss). (3) Um sentido mais específico é “executar certas obrigações”, p. ex., pelos apóstolos (Rm 11:13; 2Co 4:1), pelos evangelistas (2Tm 4:5), ou por assistentes tais como Marcos (2Tm 4:11). A atividade de um ofício é tema em Cl 4:17, embora não esteja claro se Arquipo é um diácono ou não. (4) A coleta é uma diakonía (Rm 15:31; 2Co 8:1ss; cf. At 11:29-30). Não se trata de uma coisa de importância menor, é antes um verdadeiro ato de amor cristão.” Dicionário Teológico do Novo Testamento - vol. I, 2013, Editora Cultura Cristã. Organizado por Gerhard Kittel e Gerhard Friedrich, e condensado por Geoffrey W. Bromiley (Cultura Cristã, 2013).

4. Traduzir é comunicar o sentido de um termo; transliterar é apenas reproduzir sua forma sonora em outra língua. No caso de διάκονος (diákonos), a opção por transliterar em vez de traduzir introduz no texto bíblico uma palavra técnica que não existe no original. O leitor moderno passa a encontrar “diáconos” onde o texto grego fala simplesmente de “servos”, o que desloca a compreensão do campo semântico do serviço para o de um suposto ofício clerical.

5. Muitas traduções vertem διακονία (diakonía) pelo termo “ministério”, o que, embora linguística e contextualmente possível, pode introduzir no leitor moderno a ideia de uma função clerical formal inexistente no texto original. No grego do Novo Testamento, diakonía não descreve uma posição institucional, mas o exercício de um serviço confiado, seja ele material ou espiritual. Assim, quando a tradução opta por “ministério”, é necessário cautela hermenêutica para que o vocábulo não seja lido à luz de categorias eclesiásticas posteriores, mas segundo o horizonte semântico do primeiro século.

Escrito por Alan Capriles
Publicado em 30/12/2025

Sobre o autor: Alan Capriles é um seguidor de Cristo sem rótulo denominacional, pesquisador independente do Novo Testamento e da história do cristianismo. Dedica-se a ensinar o evangelho e a compartilhar gratuitamente suas pesquisas, sem vínculo institucional e com respeito a todas as denominações. Ele agradece qualquer forma de apoio para que possa continuar se dedicando integralmente às pesquisas, ao compartilhamento de suas descobertas e ao auxílio gratuito àqueles que desejam congregar de maneira simples e edificante em Cristo.
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