OS DOZE
Ocorrências em que “doze” se refere aos primeiros 12 apóstolos: Mt 10:1,2,5; 11:1; 19:28; 20:17; 26:14,20,47; Mc 3:14; 4:10; 6:7; 9:35; 10:32; 11:11; 14:10,17,20,43; Lc 6:13; 8:1; 9:1,12; 18:31; 22:14*,30,47; Jo 6:67,70,71; 20:24; At 6:2; 1Co 15:5; Ap 21:14.
* Lucas 22:14 diverge no Texto Crítico, não apresentando “doze” antes de “apóstolos”.

“Os Doze” é a designação do grupo formado pelos doze discípulos que Jesus escolheu para que estivessem sempre com ele e fossem enviados a pregar o evangelho, curar enfermos e expulsar demônios, sendo também chamados de “os doze apóstolos”.

Devemos considerar que o termo apóstolo significa “enviado com uma missão”. Sendo assim, nem todo apóstolo mencionado no NT fazia parte dos Doze, mas todos os Doze eram genuinamente apóstolos, pois foram enviados por Jesus em missão. Em Atos 14:14, por exemplo, Barnabé e Paulo também são mencionados como apóstolos, pois foram enviados pelo Espírito Santo em missão, mas eles jamais fizeram parte dos Doze.

A escolha dos Doze, segundo Lucas, ocorreu após Jesus passar a noite em oração no monte. “E, quando já era dia, chamou a si os seus discípulos, e escolheu doze deles, a quem também deu o nome de apóstolos” (Lc 6:12,13). A quantidade escolhida não ocorreu por acaso. Doze era um número muito significativo para os israelitas, pois remetia às doze tribos de Israel, as quais muitos judeus esperavam que fossem restauradas e reunificadas no fim dos tempos. Com a escolha específica de doze discípulos, a mensagem a ser transmitida (mas apenas compreendida posteriormente) era a de que por meio da em Cristo (= adesão a Cristo) formava-se um novo Israel, o Israel de Deus, tal como demonstrado em algumas epístolas (Rm 9:6-8; Gl 3:7-9,29; 6:16; Fp 3:3; 1Pe 2:4-10).

Os nomes dos apóstolos que compõem os Doze são listados nos evangelhos sinóticos1 (Mt 10:2-4; Mc 3:16-19; Lc 6:14-16), havendo também uma lista em Atos 1:13, mas onde Judas Iscariotes não aparece porque já havia morrido.

“Ora, os nomes dos doze apóstolos são estes: O primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Lebeu, apelidado Tadeu; Simão, o Cananita, e Judas Iscariotes, aquele que o traiu.”
Mateus 10:2-4

“E nomeou doze para que estivessem com ele e os mandasse a pregar, e para que tivessem o poder de curar as enfermidades e expulsar os demônios: A Simão, a quem pôs o nome de Pedro, e a Tiago, filho de Zebedeu, e a João, irmão de Tiago, aos quais pôs o nome de Boanerges, que significa: Filhos do trovão; e a André, e a Filipe, e a Bartolomeu, e a Mateus, e a Tomé, e a Tiago, filho de Alfeu, e a Tadeu, e a Simão, o Cananita, e a Judas Iscariotes, o que o entregou.”
Marcos 3:14-19

“Simão, ao qual chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelote; e Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que foi o traidor.”
Lucas 6:14-16

“E, entrando, subiram ao cenáculo, onde habitavam Pedro e Tiago, João e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelote, e Judas, irmão de Tiago.”
Atos 1:13

Embora o quarto Evangelho não apresente uma lista dos Doze, nele se confirma a existência de doze apóstolos (Jo 6:67,70,71; 20:24). No entanto, em João aparece um discípulo chamado Natanael, cujo nome não é mencionado em qualquer outro livro do NT, mas que parece também fazer parte dos Doze (Jo 1:45-51; 21:2). A solução mais aceita é a suposição de que Natanael seja o mesmo discípulo mencionado como Bartolomeu nos sinóticos.

Comparando-se as quatro listas, e incluindo Natanael como prenome de Bartolomeu, chegamos à seguinte relação:

Os Doze

1. Simão Pedro (Cefas)
2. André
3. Tiago
4. João
5. Filipe
6. Bartolomeu (Natanael)
7. Tomé
8. Mateus, o publicano (Levi)
9. Tiago de Alfeu
10. Judas de Tiago (Lebeu, Tadeu)
11. Simão, o Cananita/Zelote
12. Judas Iscariotes

Algumas breves considerações a respeito de cada um dos Doze:2

Simão Pedro (Cefas)
Natural de Betsaida, na Galileia (Jo 1:44), residia em Cafarnaum quando foi chamado por Cristo. Antes de Jesus o chamar para segui-lo, Simão trabalhava como pescador em Cafarnaum, cidade situada às margens do mar da Galileia (Mc 1:16-21,29). Ele sempre aparece encabeçando a lista dos Doze. Simão recebeu de Jesus o apelido aramaico de Kēpā, que significa “pedra” (Jo 1:42), o qual foi transliterado para o grego do NT como Kēphâs, vindo a resultar em Cefas na transliteração para o português. Uma tradução literal de João 1:42 é a seguinte:

“E, olhando Jesus para ele, disse: Tu és Simão, filho de Jonas; tu serás chamado Cefas, que quer dizer Pedra.”

Porém, como “pedra” é um substantivo feminino na língua portuguesa, a solução foi “masculinizar” a palavra “pedra”, resultando em “Pedro”. Com toda certeza Simão Pedro era casado (Mt 8:14; 1Co 9:5). Em Atos 4:13 afirma-se que Pedro e João eram iletrados e indoutos – provável situação da maioria dos Doze, com exceção de Mateus. Simão Pedro foi o porta-voz dos Doze na declaração de que Jesus era o Cristo, ou seja, o Messias (Mt 16:15-16; Mc 8:29; Lc 9:20).3 Porém, o primeiro a ter reconhecido a messianidade de Jesus foi o seu irmão André (Jo 1:40-41), o qual foi quem apresentou Simão a Jesus (Jo 1:41-42).

André
Natural de Betsaida, na Galileia (Jo 1:44). Irmão de Simão Pedro, com o qual também trabalhava na pesca. Antes de seguir Jesus, André foi discípulo de João Batista (Jo 1:35-40). Chamado por Jesus para ser “pescador de homens” juntamente com Simão Pedro (Mt 4:18-20; Mc 1:16-18), embora o relato paralelo em Lucas não o mencione, mas inclua Tiago e João (Lc 5:1-11). André foi o primeiro dos Doze a declarar Jesus como Messias, ou Cristo (Jo 1:40-41) – declaração que posteriormente seu irmão Simão Pedro pronunciou em nome dos Doze (Mt 16:15-16; Mc 8:29; Lc 9:20).

Tiago
Filho de Zebedeu, para o qual trabalhava como pescador até o dia em que foi chamado por Jesus para segui-lo (Mt 4:18-20; Mc 1:19-20; Lc 5:10-11). Tiago foi o primeiro apóstolo a ser martirizado, por volta do ano 44 (Atos 12:1-2). Não se deve confundir este Tiago, filho de Zebedeu, e irmão de João, com o outro Tiago, que também era um dos Doze, mas que era filho de Alfeu (Mt 10:3; Mc 3:18; Lc 6:15). Também não devemos confundir estes dois apóstolos com outro Tiago, que foi o irmão carnal de Jesus, o qual se uniu aos apóstolos somente após a ressurreição de Cristo (Mt 13:55; Mc 6:3; At 12:17; 15:13; 21:18; 1Co 15:7; Gl 1:19; 2:9,12).4

João
Irmão de Tiago, com o qual também trabalhava para seu pai Zebedeu. Antes de seguir Jesus talvez João tenha sido discípulo de João Batista – isto é, caso ele seja o discípulo que estava com André no relato de João 1:35-40, mas cujo nome não foi revelado. João e seu irmão Tiago foram apelidados por Jesus de “Boanerges”, um termo aramaico que traduzido significa “Filhos do Trovão” (Mc 3:17). Os irmãos João e Tiago, juntamente com Pedro, foram separados do grupo dos Doze para acompanhar Jesus em ao menos três situações: (1) na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5:37; Lc 8:51), (2) na transfiguração de Jesus no monte (Mt 17:1; Mc 9:2; Lc 9:28), e (3) na oração no Getsêmani (Mt 26:36-37; Mc 14:32-33). O motivo para tal separação não é mencionado nos sinóticos, mas a ausência de qualquer menção a isso no Evangelho de João indica não se tratar de haver proeminência desses três sobre os demais apóstolos, pois tal atitude seria contrária ao que o próprio Jesus Cristo lhes ensinou (Mt 20:25-28; 23:8-12; Mc 10:42-45; Lc 22:24-27; Jo 13:13-17).

Filipe
Natural de Betsaida (Jo 1:44). Filipe talvez tenha sido o primeiro discípulo a quem Jesus disse “segue-me” (Jo 1:43). Apesar de não ser mencionado nos sinóticos e em Atos, a não ser na lista dos Doze, Filipe é um dos apóstolos mais citados no Evangelho de João, onde às vezes é mencionado na companhia de André (Jo 6:5-9; 12:20-22). Ambos, Filipe e André, são os únicos dentre os Doze a possuir nomes gregos. Todos os demais possuem nomes hebraicos ou aramaicos. Isso talvez explique por que alguns peregrinos gregos escolheram Filipe para pedir que lhes conseguisse um encontro com Jesus, e Filipe transmitiu o recado juntamente com André. Filipe foi quem conduziu Natanael a Jesus (Jo 1:45-46). Não devemos confundir este Filipe, apóstolo, com outro Filipe, mencionado em Atos 6:5 e 21:8.

Bartolomeu (Natanael)
Nasceu em Caná, na Galileia (Jo 21:2), aceitando-se a suposição de que Bartolomeu e Natanael sejam a mesma pessoa. Há dois motivos para se concluir que Natanael e Bartolomeu sejam a mesma pessoa. Primeiro, porque Bartolomeu se trata de um sobrenome, cujo significado é “filho de Tolomeu”. Sendo assim, Bartolomeu é o único dos Doze em que faltava o nome próprio, o qual pode ser o Natanael mencionado em João. O segundo motivo baseia-se na proximidade entre Filipe e Natanael (João 1:45-48), mas que nas listas dos sinóticos aparece entre Filipe e Bartolomeu (Mt 10:3; Mc 3:18 e Lc 6:14). O nome Bartolomeu aparece apenas nas quatro listas dos Doze, não sendo mais citado no NT. O nome Natanael, no entanto, é citado em duas passagens do Evangelho de João (1:45-51; 21:2).

Tomé
Tomé aparece somente nas listas dos Doze, não sendo mais mencionado nos Evangelhos sinóticos. Em João, no entanto, há três passagens onde Tomé está envolvido (Jo 11:16; 20:24; 21:2). Em todas as três o seu nome é acrescido da explicação de que Tomé significa “gêmeo”, escrito em grego como dydimos. Lamentavelmente, a maioria das versões em português não traduziram o grego dydimos, mas o transliteraram como Dídimo. O “D” maiúsculo pode transmitir a ideia de que Dídimo se tratasse de outro nome de Tomé, quando na verdade é a tradução do seu nome para o grego. Ou seja, Tomé significa “gêmeo” em aramaico/hebraico. Por que João considerou importante explicar isso para os leitores gregos? Não o sabemos.

Mateus, o publicano (Levi)
O único dos Doze que certamente sabia ler e escrever, pois havia sido publicano, ou seja, cobrador de impostos – ocupação que prontamente abandonou quando Jesus lhe disse: "Segue-me." (Mt 9:9). A identificação de Mateus como Levi ocorre apenas se compararmos o Evangelho de Mateus com os dois outros sinóticos. Em Mateus, o mesmo publicano chamado de Levi nos Evangelhos de Marcos e Lucas (Mc 2:14; Lc 5:27) aparece nomeado como Mateus (Mt 9:9). A identificação é ainda reforçada na lista apresentada neste primeiro Evangelho – única lista dos Doze onde o nome Mateus é acrescido de “o publicano” (Mt 10:3). Fato é que o nome Levi não aparece no Evangelho de Mateus, porém o nome Mateus aparece nas quatro listas dos Doze (Mt 10:3; Mc 3:18; Lc 6:15; At 1:13). A possível explicação é que Levi, o publicano, passou a ser chamado de Mateus após tornar-se um dos Doze. Como e porque se deu a mudança de nome, podemos apenas especular. Em Marcos menciona-se que Levi era filho de Alfeu (Mc 2:14). Curiosamente, o outro Tiago, sem ser o filho de Zebedeu, também é chamado de “filho de Alfeu” em todas as listas dos Doze nos Evangelhos (Mt 10:3; Mc 3:18; Lc 6:15). É improvável (mas não impossível) que Tiago, filho de Alfeu, e Levi, filho de Alfeu, sejam irmãos, sendo mais coerente que não se trate do mesmo Alfeu.

Tiago de Alfeu
A maioria das versões em português trazem “Tiago filho de Alfeu”, pois, embora o termo “filho” não conste no grego, a designação “de” após um nome indicava que a seguir viria o nome do seu pai. Logo, fica subentendido que “Tiago de Alfeu” seja “Tiago filho de Alfeu”, um detalhe que o distingue do outro Tiago, filho de Zebedeu, e irmão de João. É possível, mas não provável, que Tiago de Alfeu seja o mesmo identificado também como “Tiago, o menor”, em Marcos 15:40. Caso seja o mesmo Tiago, então sua mãe se chamava Maria.

Judas de Tiago (Lebeu, Tadeu)
Tal como visto acima, na análise de Tiago de Alfeu, o nome “Judas de Tiago” deve significar “Judas, filho de Tiago”. Logo, talvez não seja correto se dizer “Judas irmão de Tiago”, como aparece em algumas versões. Curiosamente, o nome “Judas de Tiago” ocorre apenas nas listas de Lucas (Lc 6:16; At 1:13), onde se deveria constar “Lebeu”, segundo as duas primeiras listas (Mt 10:3; Mc 3:18). A este “Lebeu”, o Evangelho de Mateus acrescenta o detalhe dele ser apelidado de “Tadeu”. Sendo “Judas de Tiago” e “Lebeu Tadeu” a mesma pessoa, podemos nomeá-lo como “Judas Lebeu, filho de Tiago, apelidado de Tadeu”. A tradição cristã passou a chamá-lo simplesmente de “Judas Tadeu”. O quarto Evangelho confirma a existência de outro Judas dentre os Doze, ao mencionar “Judas, não o Iscariotes” em João 14:22. Aliás, esta é a única ocorrência em todo o NT em que Judas de Tiago, ou Lebeu Tadeu, se pronuncia.

Simão, o Cananita (chamado Zelote)
Mencionado apenas nas listas dos Doze – em Mateus e Marcos como “Simão, o Cananita” (Mt 10:4; Mc 3:18), e nas listas de Lucas como “Simão, o Zelote” (Lc 6:15; At 1:13), mas com certeza se trata da mesma pessoa. “Zelote” é a tradução para o grego (zelotes) da palavra aramaica “Cananita” (qan’ana’) que em algumas versões em português aparece como Cananeu. Tanto o aramaico qan’ana’ quanto o grego zelotes são termos que significam “zeloso”. Enquanto Mateus e Marcos decidiram transliterar para o grego a palavra aramaica qan’ana’, resultando em kananites, Lucas preferiu fazer a tradução do seu significado para o grego, resultando em zelotes. Porém, não devemos supor que este Simão fosse, ou tivesse sido integrante do grupo armado conhecido como “os Zelotes”, pois tal facção revolucionária judaica só veio a existir muito anos depois.5 Sendo assim, o apelido de Simão provavelmente indicava que ele era conhecido por ser um zeloso praticando da Lei – algo que demonstra o esforço que ele deve ter feito para assentar-se com publicanos e pecadores para poder acompanhar Jesus em seu ministério público.6

Judas Iscariotes
O Evangelho de João menciona por três vezes que Judas Iscariotes era filho de Simão (Jo 6:71; 13:2,26), porém não sabemos de quem se tratava esse Simão. Quanto ao segundo nome, “Iscariotes”, nada se sabe quanto à sua etimologia, o que dá margem para muitas especulações. A mais popular supõe que “Iscariotes” indica uma aldeia na Judéia onde Judas teria nascido, chamada Queriote, pois “homem de Queriote” em hebraico seria is qeriyyôt. De fato, em Josué 15:25 se faz menção a “Queriote-Hezrom (que é Hazor)”. Judas Iscariotes certamente gozava de certa confiança dentre os Doze, pois possuía o encargo de tesoureiro, sendo o responsável pela bolsa onde se guardavam as doações para o ministério de Jesus (Jo 12:6; 13:29). Sendo assim, Judas tratava-se de um homem acima de qualquer suspeita, a ponto de ninguém desconfiar que ele poderia ser o traidor – nem mesmo quando Jesus deu a dica para Pedro de quem o entregaria (Jo 13:25-29). Quanto à motivação para Judas entregar Jesus aos principais sacerdotes, em Mateus o interesse financeiro é mencionado (Mt 26:15), assim como em João, onde se acrescenta que Judas “era ladrão e tinha a bolsa, e tirava o que ali se lançava.” (Jo 12:6). Porém, o estopim para a traição provavelmente tenha sido o episódio da unção de Jesus em Betânia (Mt 26:6-13; Mc 14:3-9; Jo 12:1-8). Mateus e Marcos revelam que imediatamente após esse ocorrido foi que Judas procurou pelos principais sacerdotes para dizer-lhes que entregaria Jesus (Mt 26:14-16; Mc 14:10-11). Embora esse encontro conspiratório não seja mencionado em João, este quarto Evangelho nos traz outra revelação importante, mas acerca da unção em Betânia: a de que Judas Iscariotes foi quem primeiro criticou a unção com bálsamo, sendo ele repreendido frontalmente por Jesus (Jo 12:1-8). Ora, há pessoas que não suportam ser repreendidas em público, por mais que estejam erradas e que a repreensão ocorra com brandura. Sendo assim, apesar de Judas Iscariotes roubar do que era doado, o estopim para a decisão de entregar Jesus talvez tenha sido a raiva por se sentir envergonhado em público. Quanto ao modo como Judas morreu, se conciliarmos o que nos é revelado em Mateus 27:5 com o relato de Atos 1:18-19, podemos concluir que Judas, após reconhecer o erro que havia cometido e devolver as 30 moedas de prata que recebera (Mt 27:3-4), enforcou-se, vindo a rebentar pelo meio (talvez pela corda não suportar seu peso), com suas entranhas sendo derramadas no campo que posteriormente os principais sacerdotes compraram com as mesmas 30 moedas devolvidas. Ou seja, os sacerdotes compraram “o campo do oleiro” (Mt 27:6-7) com o “galardão da iniquidade” que Judas lhes devolvera, sendo este o motivo pelo qual em Atos 1:18 temos a impressão de que o próprio Judas “adquiriu um campo”, pois é como se ele mesmo o tivesse adquirido ao tirar sua vida naquele lugar. Provavelmente os sacerdotes, sabendo do ocorrido, decidiram comprar o campo como forma de ressarcimento ao proprietário; e, tendo em vista que Judas ali havia se matado, decidiram fazer do local um cemitério para forasteiros (Mt 26:7).


Notas

1. “Sinóticos” é uma designação utilizada quando nos referimos aos três primeiros Evangelhos: Mateus, Marcos e Lucas. O termo “sinótico” vem do grego sunoráo, que significa “ver junto”. Os sinóticos são Evangelhos que podem ser lidos lado-a-lado, sendo mais facilmente harmonizados – algo que não ocorre com João. Muitos estudiosos acreditam que o quarto Evangelho seja tão diferente pois foi escrito para ser um complemento dos sinóticos, contendo relatos ou histórias que faltaram em Mateus, Marcos e Lucas. Tais relatos, inclusive, teriam sido reorganizados, visando uma estrutura didática que conduz a um clímax. Para saber mais sobre a singularidade do Evangelho de João em relação aos sinóticos, leia (principalmente a partir do capítulo seis) JESUS, O PURIFICADOR: O Evangelho de João e a quarta busca pelo Jesus Histórico, de Craig L. Blomberg – São Paulo: Vida Nova, 2024

2. Um índice com todos os nomes mencionados no Novo Testamento está sendo preparado para ser disponibilizado em nosso site. Nele haverá maiores detalhes sobre cada um dos Doze apóstolos. O Índice de Nomes, à semelhança do que ocorre neste nosso Glossário, também será publicado em pleno processo de elaboração, mas priorizando os personagens mais significativos.

3. Pedro foi o porta-voz dos Doze porque a pergunta feita por Jesus não foi direcionada exclusivamente para ele, mas para todos os apóstolos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16:15; Mc 8:29; Lc 9:20). Sendo assim, Pedro respondeu por todos, e não apenas por ele mesmo.

4. Considera-se que o autor da Epístola de Tiago tenha sido Tiago, o irmão do Senhor, e não um dos Doze. O mesmo Tiago, irmão do Senhor, deve ser também o Tiago mencionado no primeiro versículo da Epístola de Judas, sendo este Judas outro possível irmão do Senhor. Os nomes dos irmãos de Jesus são “Tiago, José, Simão e Judas” (Mt 13:55; Mc 6:3).

5. “Estudiosos como Morton Smith e Shayle Cohen argumentaram com razão que a facção revolucionária que Josefo denomina “os zelotes” só surgiu durante a Primeira Revolta Judaica, mais especificamente no inverso de 67-68 A.D. em Jerusalém. Transformar Simão, o Cananeu, em “zelote” no sentido restrito de membro desse grupo organizado de rebeldes armados é um anacronismo injustificável.” MEIER, John P. Um Judeu Marginal: repensando o Jesus histórico, vol.3, livro 1. 1ed. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2003, p.217.

6. “O chamado de Simão ao discipulado e depois para se tornar membro dos Doze exigia uma mudança básica em sua perspectiva e em suas ações. Sem dúvida, isso também se aplicava, de uma forma ou de outra, ao resto dos Doze. Contudo, a mudança no caso de Simão deve ter sido especialmente aflitiva. Afinal de contas, Jesus insistia em confraternizar com a “ralé” religiosa do judaísmo da Palestina, os “publicanos e pecadores” (Mc 2:15-17). Tão regular e abertamente Jesus se reunia com eles à mesa que era motivo de zombaria por parte de alguns judeus observantes rigorosos, como um “glutão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores” (Mt 11:19 par.). Avançando além da comensalidade, Jesus chamou pelo menos um publicano, Levi, para o discipulado (Mc 2:14; cf. Lc 19:1-10), do mesmo modo que chamou Simão, o Zelote. [...] Não havia lugar para sectarismo estreito ou exclusividade puritana nessa abrangência escatológica. O chamado inclusivo de Jesus à comunidade também exigia uma nova atitude dos que aceitavam tal chamado: Simão teria que aceitar o ex-coletor de impostos Levi como seu par entre os discípulos, do mesmo modo que Levi e os outros teriam que aprender a conviver com Simão.” MEIER, John P. Um Judeu Marginal: repensando o Jesus histórico, vol.3, livro 1. 1ed. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2003, p.219.

Autor: Seguidor de Cristo sem rótulo denominacional, pesquisador independente do Novo Testamento e da história do cristianismo, autodidata, dedicado a ensinar o evangelho e compartilhar meus conhecimentos gratuitamente, sem qualquer barreira e influência institucional. Porém, não sendo assalariado, admito necessitar de ajuda para prosseguir nessa missão, seja para realizar viagens missionárias de apoio a congregações, seja para investir na compra de livros e equipamentos para melhoria na gravação dos vídeos de ensino. Sendo assim, agradeço muito se puder apoiar o meu trabalho, seja com uma doação pontual ou mensal. Assim poderei continuar me dedicando a pesquisar e compartilhar minhas descobertas, bem como as conclusões a que tenho chegado. Imensa gratidão!
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