1 Timóteo e Tito
Há um importante debate entre os estudiosos do Novo Testamento a respeito de 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito — as três epístolas chamadas de Pastorais.1 Embora a maioria dos cristãos evoquem as Pastorais para justificar e perpetuar a hierarquia eclesiástica, o fato é que não há consenso no meio acadêmico a esse respeito.2 Analisando a situação, percebemos que parte do problema decorre do modo equivocado como certas palavras foram traduzidas nessas epístolas, e do anacronismo com que são lidas. Isso resulta na ideia errônea de que Timóteo e Tito fossem líderes, sendo estes subordinados ao líder-mor, Paulo, o qual estaria lhes ordenando que estabelecessem novos líderes para certas igrejas. Contudo, essa aparente nomeação de líderes não ocorre em 2 Timóteo, razão pela qual essa epístola não consta na presente análise das Pastorais.3

O problema

Se compararmos 1 Timóteo e Tito com as epístolas que Paulo escreveu anteriormente às igrejas, notamos algo que requer explicação.4 Não nos referimos ao estilo, embora este seja muito diferente nas Pastorais, mas ao fato de que a instituição de líderes nessas epístolas entraria em contradição com princípios que ele mesmo ensinara às igrejas.5 Teria o apóstolo mudado de ideia? Alguns argumentam que sim: Paulo teria percebido que suas instruções para cuidado mútuo entre os irmãos não estavam dando certo, e então teria decidido apelar para a nomeação de líderes a fim de colocar ordem nas igrejas por meio da imposição.6 Porém, tal argumento gera duas situações ainda piores. Em primeiro lugar, tornaria desprezíveis diversas instruções de Paulo em suas outras epístolas, onde os irmãos foram orientados sobre como congregar sem liderança humana, mas submissos a Cristo; e, segundo, seria um ato de desobediência ao próprio Senhor, que instruiu seus discípulos a serem todos igualmente irmãos, proibindo tanto o uso de autoridade quanto a adoção de títulos entre eles.7

O desafio

Devemos iniciar nossa análise partindo do pressuposto de que Paulo não desobedeceu ao Senhor nas Pastorais, mas permaneceu fiel à doutrina de Cristo que ele mesmo havia ensinado nas outras epístolas. Sendo assim, como explicar certos trechos em 1 Timóteo e Tito, onde Paulo parece estabelecer uma hierarquia entre os irmãos?

As propostas

Alguns estudiosos chegam ao extremo de propor que essas epístolas não teriam sido escritas por Paulo, mas por uma segunda geração de discípulos que as redigira após o martírio do apóstolo.8 Esses acadêmicos se dividem em três grupos: (1) os que dizem que todo o conteúdo das três epístolas Pastorais teria sido inventado; (2) os que suspeitam que apenas parte do texto teria sido modificado, com acréscimo de certos trechos e palavras; e (3) os que defendem que somente 2 Timóteo seria autêntica, tendo ela servido de base para se inventar que houvesse uma epístola anterior, 1 Timóteo, e para se elaborar Tito.

O dilema

Embora essa discussão teológica possa parecer herética, beirando a loucura, ela é tratada com muita seriedade no meio acadêmico. Ora, de fato, quando 1 Timóteo e Tito são analisadas à luz do contexto de todo o Novo Testamento, essas epístolas nos apresentam um dilema:

Ou Paulo mudou de ideia nas Pastorais — mas isso implicaria nele se contradizer e desobedecer ao Senhor —, ou são essas epístolas que nos oferecem um desafio a ser solucionado, a fim de não haver um contrassenso ao próprio Paulo e conflito com a doutrina de Cristo.

Só nos resta escolher a segunda opção — de um desafio a ser solucionado —, pois a primeira resultaria em situações absurdas. Sendo assim, veremos a seguir uma possível solução, mas que necessitamos apresentar de modo resumido.

A solução que propomos

Não necessitamos ir ao extremo de considerar que as epístolas Pastorais sejam livros apócrifos inseridos no Novo Testamento, ou que somente 2 Timóteo seja autêntica, ou ainda que alguns trechos de Tito e 1 Timóteo sejam interpolações. Uma solução mais aceitável já foi pincelada na introdução da nossa análise. Ela consiste na percepção de dois problemas — um de tradução, outro de anacronismo.

Leitura anacrônica

Como se sabe, o termo “anacronismo” significa atribuir-se a uma época ou a um personagem ideias e sentimentos que são de outra época. Um exemplo de anacronismo é o entendimento errôneo que muitos fazem da palavra “igreja” quando a leem no Novo Testamento. Na época em que os textos neotestamentários foram escritos o termo grego ἐκκλησία (ekklesia), traduzido como “igreja”, não significava um templo ou instituição, e nem sequer tinha qualquer conotação religiosa, mas indicava tão somente uma assembleia, um ajuntamento de pessoas para algum propósito.9

Anacronismo semelhante ocorre no entendimento dos termos “apóstolo”, “diácono”, “presbítero” e “bispo”. Essas palavras não eram entendidas como títulos pelos primeiros discípulos de Cristo.10 Prova disso é que jamais encontramos esses termos precedendo o nome de qualquer personagem do Novo Testamento. Eles utilizavam esses termos para se referir ao exercício de tarefas concernentes a dons ofertados pelo Senhor, mas cientes de que isso não lhes dava posição de autoridade sobre outros irmãos (1 Coríntios 3:5-9; 2 Coríntios 1:24; 4:5; 10:12; Gálatas 2:6; 1 Pedro 5:1-3).11

Portanto, não devemos supor que Paulo se sentisse superior por ser apóstolo, ou que ele estivesse ordenando que Timóteo e Tito elegessem líderes. Mas é compreensível que a maioria das pessoas entenda dessa forma, pois são levadas a fazer uma leitura anacrônica, tendo em vista que os referidos termos são entendidos como títulos concernentes a cargos há muitos séculos.12 Porém, não era o que Paulo tinha em mente ao escrever as Pastorais.

Erros de tradução

O anacronismo não é um problema que ocorre somente nos leitores, mas que atinge também aos próprios tradutores do Novo Testamento. Isso fica demonstrado pela escolha de verbos como “mandar” e “ordenar” na primeira pessoa do singular nos escritos de Paulo, como se ele fosse alguém autoritário que dissesse “eu mando” ou “eu ordeno”. Quando averiguamos o termo original grego descobrimos que se trata de um verbo que significa “anunciar” ou “instruir”.13 Logo, Paulo não está mandando e ordenando, mas apenas dando orientações aos irmãos. Muitos tradutores, no entanto, preferem utilizar palavras que melhor se adaptam ao sistema religioso hierárquico, onde seus líderes geralmente exigem submissão a eles. Optando por palavras autoritárias, esses tradutores eliminam a humildade do verdadeiro Paulo e, ainda pior, fornecem base “bíblica” para estimular uma liderança autoritária com a qual nenhum apóstolo concordaria — e muito menos o Senhor Jesus Cristo!

Entre vós não será assim

Antes de concluirmos o assunto, convém que recordemos das passagens onde o Senhor ordena que seus discípulos não se julguem superiores e não queiram usar de autoridade uns sobre os outros. A fim de que se perceba com clareza esse ensinamento, colocamos em destaque os pontos que necessitam de mais atenção em cada passagem.

“Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo.”
Mateus 23:8-10

“Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios, deles se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre eles; mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal; e qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos.”
Marcos 10:42-44

“E disse-lhes: Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece os vossos corações, porque o que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação.”
Lucas 16:15

“Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. (...) Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor.”
João 10:11,16


Ensinamento fundamental

Como vemos nas passagens acima, o Senhor proibiu peremptoriamente que seus seguidores (1) julgassem ter primazia sobre outros, (2) se assenhorassem dos demais, (3) usassem de autoridade e (4) adotassem títulos honoríficos. Certamente essa proibição visava evitar que seus seguidores elaborassem um sistema religioso semelhante ao que ele mesmo contestava (cf. Mateus 23). Essa contestação era válida e necessária, pois Jesus sabia que a velha aliança estava prestes a terminar (Hebreus 8:13; 9:15) e que uma nova aliança começaria logo após a sua glorificação na cruz e ressurreição (Lucas 22:20; João 12:32; 19:30), a saber: O Espírito Santo de Deus habitando em seus discípulos, de modo que todos que nele cressem seriam por ele mesmo guiados (João 7:37-39; 14:16-17,26; 16:13; Romanos 8:9,14).

Consequentemente, o modelo hierárquico humano torna-se obsoleto na nova aliança, pois todos os membros do corpo de Cristo devem obedecer ao comando da única cabeça desse único corpo, que é o próprio Senhor (Efésios 1:22-23; Colossenses 1:18), o qual nos guia através do seu Espírito (Romanos 8:14; 1 Coríntios 12:4-6; 1 João 2:27) — e este, obviamente, jamais contradiz os ensinamentos que o próprio Jesus transmitiu aos apóstolos (João 14:26; 16:13-15; Gálatas 1:8). Ora, Paulo escreveu muito a esse respeito nas epístolas às igrejas (Romanos 8:9-11; 1 Coríntios 12:12-13; Gálatas 3:26-28; Efésios 4:4-6), de modo que ele jamais iria se contradizer nas Pastorais.

Epístolas de Paulo às igrejas

Vejamos agora determinados trechos das cartas que Paulo escreveu às igrejas. É significativo que, embora houvesse problemas entre os irmãos, o apóstolo nunca se reporta a líder algum.14 Isso nos revela que não havia irmão em posição de autoridade sobre os demais. Paulo também não demostrou qualquer interesse em escolher alguém para que exercesse autoridade na congregação. Antes, pelo contrário, encontramos instruções que tornam impossível a existência de líderes humanos nas igrejas, como vemos a seguir.

“Portanto cada um de nós agrade ao seu próximo no que é bom para edificação. Porque também Cristo não agradou a si mesmo, mas, como está escrito: Sobre mim caíram as injúrias dos que te injuriavam. (...) Eu próprio, meus irmãos, certo estou, a respeito de vós, que vós mesmos estais cheios de bondade, cheios de todo o conhecimento, podendo admoestar-vos uns aos outros.”
Romanos 15:2-3,14

“Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens? Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apolo; porventura não sois carnais? Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. (...) Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. (...) Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo. Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para ser sábio. Portanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso; seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro; tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo de Deus.
1 Coríntios 3:11,16-18,21-23

“Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. (...) Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados.”
1 Coríntios 14:26,31

“Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor. Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.”
Gálatas 5:13-14

“Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão; olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo.”
Gálatas 6:1,2

“E não vos embriagueis com vinho, em que há dissolução, mas enchei-vos do Espírito; falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração; dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo; sujeitando-vos uns aos outros no temor de Deus.”
Efésios 5:18-21

“Portanto, se há algum conforto em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões, completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa. Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros.”
Filipenses 2:1-4

“E digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas. (...) Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade; e estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade; (...) Ninguém vos domine a seu arbítrio com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando em vão inchado na sua carnal compreensão, e não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus.”
Colossenses 2:4,8-10,18-19

“E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações; e sede agradecidos. A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração.”
Colossenses 3:15-16

Ninguém oprima ou engane a seu irmão em negócio algum, porque o Senhor é vingador de todas estas coisas, como também antes vo-lo dissemos e testificamos. (...) Por isso exortai-vos uns aos outros, e edificai-vos uns aos outros, como também o fazeis.”
1 Tessalonicenses 4:6; 5:11

Muitos não percebem (ou não querem perceber?) que as instruções acima tornam impossível o estabelecimento de liderança humana nas igrejas. Por exemplo, como poderia um irmão exercer autoridade sobre outro, se Paulo instrui que cada um considere o seu irmão superior a si mesmo? (Filipenses 2:3).

Paulo versus hierarquia

Além das referências acima, podemos ainda mencionar certas passagens onde Paulo faz advertências contra qualquer irmão querer usurpar a liderança de Cristo na congregação.

“Vós bem sabeis, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia, como em todo esse tempo me portei no meio de vós, servindo ao Senhor com toda a humildade, e com muitas lágrimas e provações, que pelas ciladas dos judeus me sobrevieram (...) Mas de nada faço questão, nem tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus. (...) Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue. Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho; e que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas [distorcidas], para atraírem os discípulos após si. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que durante três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar com lágrimas a cada um de vós. Agora, pois, irmãos, encomendo-vos a Deus e à palavra da sua graça; a ele que é poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os santificados.”
Atos 20:18-19,24,28-32

“Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós. (...) Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor.”
Efésios 4:1-6,15,16

“Que os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em amor, e em todas as riquezas da plena certeza da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. E digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas. (...) Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade; e estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade”
Colossenses 2:2-4,8-10


Epístolas não paulinas

Assim como nas epístolas de Paulo às igrejas, encontramos também nas epístolas não paulinas passagens que não deixam margem para qualquer exaltação de um irmão sobre outro.

“Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus, grande pastor das ovelhas, vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Jesus Cristo, ao qual seja glória para todo o sempre. Amém.”
Hebreus 13:19-21

“Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Quem fala mal de um irmão, e julga a seu irmão, fala mal da lei, e julga a lei; e, se tu julgas a lei, já não és observador da lei, mas juiz. Há só um legislador que pode salvar e destruir. Tu, porém, quem és, que julgas a outro?”
Tiago 4:11-12

“Porque éreis como ovelhas desgarradas; mas agora tendes voltado ao Pastor e Bispo das vossas almas.”
1 Pedro 2:25

“Aos presbíteros, que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho. E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa da glória. Semelhantemente vós jovens, sede sujeitos aos anciãos; e sede todos sujeitos uns aos outros, e revesti-vos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.”
1 Pedro 5:1-5

“Tenho escrito à igreja; mas Diótrefes, que procura ter entre eles o primado, não nos recebe. Por isso, se eu for, trarei à memória as obras que ele faz, proferindo contra nós palavras maliciosas; e, não contente com isto, não recebe os irmãos, e impede os que querem recebê-los, e os lança fora da igreja. Amado, não sigas o que é mal, mas o que é bom. Quem faz o bem é de Deus; mas quem faz o mal não tem visto a Deus.”
3 João 1:9-11

“Porque se introduziram furtivamente alguns, os quais já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo.”
Judas 1:3,4


Autoridade espiritual

Tudo o que dissemos até aqui não deve ser entendido como se não existisse autoridade espiritual entre os irmãos. Certamente que deve haver autoridade em qualquer congregação, mas apenas a autoridade do Senhor Jesus Cristo — aquele que vive e reina em cada um dos seus servos (Mateus 28:18-20). Somente a ele devemos plena submissão, por meio do conhecimento da sua Palavra e da direção do seu Espírito. Ora, Paulo ensinava exatamente isso: que Cristo é a única cabeça, isto é, o único líder de seu corpo, que é a Igreja (Efésios 4:15). Logo, não deveria haver líderes humanos na Igreja, pois todos os irmãos, em qualquer congregação, são membros de um mesmo corpo: o corpo de Cristo, o qual, evidentemente, só tem uma cabeça no comando. Aliás, a analogia usada por Paulo — comparando a Igreja a um corpo humano — tem primeiramente o propósito de lembrar que todo corpo possui uma só cabeça que o governa, e um só espírito que lhe anima. Portanto, nenhum membro de qualquer congregação pode se tornar cabeça (líder) sobre os outros, nem tomar sobre si a responsabilidade pelo avivamento do corpo de Cristo, o qual é avivado diretamente pelo Espírito de Deus nos membros que o buscam de todo coração.

Conclusão

Diante de tudo o que foi exposto, podemos afirmar que as epístolas de 1 Timóteo e Tito não foram escritas com o propósito de instituir uma hierarquia dentro da Igreja, mas sim para preservar a ordem e a pureza doutrinária no corpo de Cristo. As aparentes instruções de Paulo sobre “presbíteros” e “bispos” devem ser compreendidas dentro do contexto e do vocabulário do primeiro século — livres das distorções trazidas por traduções tendenciosas e leituras anacrônicas.15

O apóstolo jamais se contradisse, nem alterou os fundamentos que ele próprio ensinara às igrejas. Sua fidelidade à doutrina de Jesus permaneceu inabalável: há um só corpo, um só Espírito, um só Senhor — Cristo, a única cabeça sobre todo o corpo (Efésios 4:4-6,15). Logo, toda a autoridade espiritual pertence exclusivamente a Cristo, e é dele que procede a orientação de todos os membros, por meio do Espírito Santo. A Igreja, portanto, não é uma instituição hierárquica, mas uma comunhão viva de irmãos e irmãs que se edificam mutuamente no amor, sob a direção do único Pastor e Guia — Jesus Cristo.16 Qualquer tentativa de se estabelecer um modelo humano de governo espiritual não apenas distorce o ensino apostólico, mas usurpa a primazia que pertence somente ao Senhor.

Portanto, a verdadeira liderança numa congregação se manifesta por meio de Cristo, ou seja, quando Cristo é tudo em todos (Colossenses 3:11). Isso resulta em cada irmão servir ao outro em amor, sob a direção do Espírito Santo, e não em posições de mando ou títulos honoríficos. Pois, como disse o próprio Cristo: “Entre vós não será assim” (Marcos 10:43). A Igreja que vive essa verdade experimenta a liberdade do Espírito e reflete, em sua comunhão, a glória daquele que a resgatou com o seu sangue. Na nova aliança, Deus governa sua igreja diretamente por meio de Cristo, a única cabeça do corpo (Efésios 1:22-23; Colossenses 1:18), e pelo Espírito Santo que habita em cada crente (João 14:26; Romanos 8:14).

Deus sempre buscou relacionar-se diretamente com o seu povo, guiando-o por meio do seu Espírito e da sua Palavra. No entanto, assim como os israelitas rejeitaram o governo direto de Deus e pediram a Samuel que lhes desse um rei humano — “para que sejamos como todas as outras nações” (1 Samuel 8:5,19-20) —, muitos cristãos logo desejaram um sistema de autoridade visível e hierárquico dentro da igreja — “para que fossem como todas as outras religiões”: com sacerdotes, templos, obrigações e rituais. Naquele tempo, o Senhor disse a Samuel: “Não foi a ti que rejeitaram, mas a mim, para que eu não reine sobre eles” (1 Samuel 8:7). Ainda assim, Deus permitiu que tivessem um rei, mesmo não sendo essa a sua vontade, para mostrar as consequências da escolha humana (1 Samuel 8:9-18). De modo semelhante, Deus permitiu que houvesse líderes eclesiásticos na igreja, embora não seja essa a sua vontade — e todos vemos as consequências. Assim, a existência de estruturas hierárquicas na igreja não representa a vontade original de Deus, mas algo que Ele tolera por causa da fraqueza humana, que deseja ver um líder físico e submeter-se a ele — do mesmo modo que, em Israel, Ele tolerou o governo de reis, embora desejasse reinar diretamente sobre o seu povo. Há pessoas salvas em Cristo no meio religioso? Certamente que sim! Porém, a salvação não ocorre por haver uma hierarquia eclesiástica, mas apesar de ela existir. O poder para a salvação de todo aquele que crê está no evangelho, não na estrutura religiosa.

Para saber mais

Verifique nossa análise sobre o verbo grego προΐστημι (proïstēmi), traduzido erradamente como "presidir", "governar" ou "liderar" em 1 Timóteo 3:4,5,12; 5:17, clicando aqui.


Notas


1. “Precisamente em 1703, D.N. Berdot em seu trabalho ‘Exercitatio theol. exegetica in ep. S. Pauli ad Titum’ usou a expressão "epístolas pastorais" em referência as epístolas de Timóteo e Tito. Mas, o uso técnico dessa expressão é atribuído a Paul Anton que o aplicou em uma palestra proferida na Universidade de Halle em 1726-7. Robert Falconer ressaltou que a aplicação do termo ‘pastoral’ em referência as epístolas de Timóteo e Tito refletia apenas uma opinião comum. Para esse autor esse termo não é uma definição inteiramente precisa de seu caráter: ‘as epístolas não têm um propósito uniforme: II Timóteo difere das outras duas, mas a aplicação desse termo a I Timóteo é justificável, se o tema da epístola é encontrado em 3.15 (...)’.” CARVALHO, Adriano da Silva. Uma Introdução ao Estudo das Epístolas Pastorais. São Paulo: Editora Reflexão, 2020. p. 15.

2. Para saber mais a respeito das causas de debate sobre as Pastorais, recomendamos: • Uma Introdução ao Estudo das Epístolas Pastorais, de Adriano da Silva Carvalho (São Paulo: Editora Reflexão, 2020); • Introdução ao Novo Testamento - vol.1, de M. Eugene Boring, cap. 16: As Pastorais e a Luta pela Tradição Paulina Autêntica (Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2015).

3. A única ocorrência em 2 Timóteo que aparentemente revelaria um Paulo autoritário foi também alvo da nossa análise. Confira clicando aqui.

4. As epístolas de Paulo às igrejas são as seguintes: Romanos, 1–2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1–2 Tessalonicenses. Escrevendo a essas igrejas, Paulo poderia ter se colocado como líder, mas não o fez, preferindo dar o exemplo de servo e irmão. Ele não ordenou a eleição de líderes para resolver problemas internos de cada congregação, mas encorajou o ensino mútuo e o cuidado recíproco. Encontramos nessas orientações a comprovação bíblica de que congregações podem se formar e se manter sem haver liderança humana, reconhecendo apenas Cristo como cabeça sobre todos os irmãos (Ef 1:22–23; Cl 1:18).

5. “Qualquer que seja a estrutura exata das congregações às quais as Pastorais se dirigem (e havia, aparentemente, ainda, alguma variedade), ela era diferente daquela dos dias de Paulo. Paulo dependia da liderança carismática em suas igrejas, com uma liderança informal em vez de uma liderança institucionalizada. Paulo não tem uma estrutura firme ou oficiais na igreja de Corinto a quem apelar durante os problemas com os quais ele está lidando em 1 e 2 Coríntios. A Igreja é guiada pelo Espírito, que trabalha através de uma variedade de dons; profetas e mestres são inspirados pelo Espírito, e a congregação como um todo deve discernir a vontade de Deus (1 Co 12-14).” BORING, M. Eugene. Introdução ao Novo Testamento - vol. 1. Santo André, SP: Academia Cristã; São Paulo, SP: Paulus, 2015. p. 635.

6. “No que diz respeito à organização eclesiástica, o contraste mais óbvio é entre as pastorais e 1 Coríntios. Ao escrever 1 Coríntios, Paulo estava plenamente consciente de que era confrontado com uma calamitosa falta de autodisciplina e de boa ordem. Mas em nenhum momento ele apela aos "presbíteros", aos "superintendentes" ou aos "diáconos" para exercerem autoridade e trazerem ordem à desordem. Ele apela ao bom senso dos coríntios (1Cor 5), espera que o carisma da sabedoria seja concedido e exercido (1Cor 6.5), exorta-os a respeitar aqueles que tomaram a iniciativa no serviço (1Cor 16.15-18). Mas ele não pressupõe que presbíteros ou líderes devam ser nomeados (compare com At 14.23). O seu conceito de "ordem eclesial" parece ser muito mais carismático, dependente da orientação e capacitação imediata do Espírito (1Cor 12, 14). Pode-se, naturalmente, argumentar que 1 Coríntios foi escrito relativamente cedo na carreira missionária de Paulo, e que a experiência da igreja de Corinto em particular fez Paulo perceber que ele tinha de exercer mais disciplina e exigir mais ordem nas suas assembleias. Mas ele já estava engajado na missão apostólica há cerca de vinte anos quando escreveu 1 Coríntios; e sua própria execução ocorreu menos de dez anos depois. E não há indicações nas suas cartas posteriores de que ele tenha reagido às crises de Corinto com a determinação de exigir maior organização nas suas igrejas.” DUNN, James D. G. Nem Judeu, Nem Grego: Uma Identidade Questionada. São Paulo, SP: Paulus, 2024. p. 861,862.

7. “Os apóstolos certamente foram equipados por Jesus com plena autoridade como Seus embaixadores; ao mesmo tempo, todavia, eles receberam a rigorosa ordem de não proclamarem-se como governadores mas como servos, exatamente como o próprio Mestre, mediante Sua prontidão para servir, através de Sua entrega à morte, tornou-se o vencedor sobre os principados e poderes. (...) Os apóstolos da primeira igreja em Jerusalém, de fato, o último em si, gozaram especial preeminência dentro da Ecclesia como um todo, porque a pregação do Evangelho originou-se com eles, em razão do já explicado fator de contingência histórica. Mas o reconhecimento desta prioridade, como é especialmente claro no caso de Paulo, foi algo inteiramente voluntário e foi mantido dentro de limites totalmente definidos. Seu respeito para com Pedro e os "pilares" não o impediu de lutar para sustentar sua causa, a causa da verdade em si, a despeito destas autoridades; e igualmente, os últimos não insistiram obstinadamente em seu status primário, mas submeteram-se à força da verdade. (...) Após a morte dos apóstolos, o ofício apostólico retém seu valor apenas de um modo: como provendo a norma da tradição fundamental agora escrita, do testemunho fundamental, aquele do Novo Testamento.” BRUNNER, Emil. O Equívoco da Igreja. São Paulo, SP: Fonte Editorial, 2008. p. 38,39.

8. “Uma vista de olhos nas Pastorais deixa claro que elas não se assemelham às outras cartas do corpus paulino. Os que tentam quantificar as impressões chamam a atenção para diferenças de 1) linguagem, 2) estilo literário, 3) perspectiva teológica, 4) organização da Igreja e 5) natureza da oposição que a Igreja tinha de enfrentar. Em consequência, a opinião dominante entre os críticos é que pelo menos a parte principal dessas três cartas não foi escrita por Paulo. Nessa hipótese, o autor [das Pastorais] preocupava-se em invocar a autoridade de Paulo, na tentativa de lidar com os problemas da Igreja por volta de 100 d.C. Assim, criou três cartas fictícias. Como elas alcançaram aceitação? Difundiu-se a notícia de que haviam ficado de fora do corpus paulino em desenvolvimento por causa de seu caráter particular. Agora, entretanto, as necessidades da Igreja exigiam que se tornassem públicas.” MURPHY-O’CONNOR, Jerome. Paulo: Biografia Crítica. 3. ed. São Paulo, SP: Edições Loyola, 2015. p. 359.

9. Para saber mais sobre o sentido original do termo grego traduzido como “igreja” clique aqui.

10. “As cartas de Paulo não indicam qualquer consciência da ordenação ou ofício de πρεσβύτερος (presbyteros, presbítero / ancião), que é central nas Pastorais. Em Paulo, διάκονος (diáconos, diácono / servo / ministro) é um termo genérico para serviço, utilizado em diversos sentidos, e está começando a ser usado no sentido específico de pessoas que têm um papel ministerial, mas ainda não está sendo usado para um ofício específico. Em Fp 1:1, Paulo se refere a "bispos" e "diáconos", sem indicação de que eles representam ofícios ministeriais específicos presentes na igreja como um todo.” BORING, M. Eugene. Introdução ao Novo Testamento - vol. 1. Santo André, SP: Academia Cristã; São Paulo, SP: Paulus, 2015. p. 636.
Em nosso Glossário do Novo Testamento analisamos o sentido original de cada um dos termos que passaram a ser entendidos erroneamente como títulos, a saber: “apóstolo”, “presbítero”, “bispo”, “diácono” e “evangelista”.

11. “O fato é que essa tendência de ritualizar as reuniões de cada comunidade foi aumentando e consolidou-se nos séculos II e III, de forma que, já na segunda metade do século III, o bispo Cipriano de Cartago falava com toda a naturalidade e com termos reconhecidos - de ‘bispos’, ‘presbíteros’ e ‘diáconos’ como membros do ‘clero’. Os outros cristãos eram, já naquela época, a ‘plebe’. Compreende-se que Cipriano, em seu tratado De singularitate clericorum, denuncie a má conduta de alguns clérigos que viviam sob o mesmo teto com mulheres, sem estar casados. Sem esquecer que a palavra ‘clero’ não aparece em nenhuma parte do Novo Testamento. É um termo que vem do grego cleros, que significa ‘sorte’. Ou seja, os que pertencem ao clero são os que tiveram a sorte de estar entre os que dispõem de poder, dignidade e privilégios, típicos de quem preside e lida com a religião.” CASTILLO, José M. Declínio da Religião e Futuro do Evangelho. Petrópolis, RJ: Vozes, 2024. p. 94,95.

12. Se as cartas atribuídas a Clemente de Roma e Inácio de Antioquia forem autênticas e realmente datadas do início do segundo século, podemos considerar que elas marcam o início do processo que culminou na formação da hierarquia eclesiástica. No entanto, essa hierarquia somente se tornou oficializada e obrigatória a partir do quarto século, por interferência do Império Romano nos assuntos da igreja. Os dons de serviço na obra de Deus — que antes eram exercidos em amor e humildade — se transformaram em títulos e cargos de liderança. Essa hierarquização foi uma obra humana. Confira a nota 14.

13. Nas Epístolas Pastorais e nas demais cartas de Paulo, o verbo predominante para instruir os irmãos é παραγγέλλω (paraggéllō), que significa “instruir, anunciar”. Ele ocorre em 1Co 7:10; 11:17; 1Ts 4:11; 2Ts 3:4,6,10,12; 1Tm 1:3; 4:11; 5:7; 6:13,17. Para se “ordenar de modo imperativo” o Novo Testamento apresenta outro verbo grego: ἐντέλλομαι (entéllomai), mas este não aparece nas epístolas paulinas, ocorrendo apenas nas seguintes passagens: Mt 4:6; 15:4; 17:9; 19:7; 28:20; Mc 10:3; 11:6; 13:34; Lc 4:10; Jo 8:5; 14:31; 15:14,17; At 1:2; 13:47; Hb 9:20; 11:22. Essa distinção linguística reforça que, mesmo quando Paulo exortava Timóteo e Tito, seu tom era de instrução pastoral e fraterna, e não de comando autoritário.

14. “Uma investigação cuidadosa das fontes do Novo Testamento nos últimos 100 anos mostrou que esta constituição de igreja, centrada no bispo, não é absolutamente determinada por Deus ou dada por Cristo, mas é o resultado de um longo e problemático desenvolvimento histórico. É obra humana e, portanto, pode ser mudada. Qualquer leitor da Bíblia pode ver, a partir dos primeiros documentos do Novo Testamento, aquelas cartas do apóstolo Paulo cuja autenticidade é indiscutível, que neles não há qualquer menção a uma instituição legal da igreja, nem com base na "autoridade apostólica" de Paulo. (...) nas comunidades paulinas não havia um episcopado monárquico, nem um presbiterado, nem uma ordenação por imposição das mãos.” KÜNG, Hans. A Igreja Católica (História Essencial). Rio de Janeiro, RJ: Objetiva, 2002. p. 46.

15. Aqueles que discordarem dessa conclusão, defendendo que Paulo tenha realmente estabelecido uma hierarquia nas Pastorais, terão que lidar com as seguintes questões: (1) Se não é possível que uma igreja se forme e se mantenha firme na graça de Deus e na fé em Cristo sem um líder humano, por que Paulo não ensinou sobre essa necessidade nas epístolas às igrejas? (2) Paulo teria mudado de ideia a respeito do que ele mesmo havia ensinado aos irmãos nas epístolas às igrejas, percebendo tardiamente a necessidade de líderes sobre os irmãos? (3) Se Paulo não mudou de ideia, como conciliar, por exemplo, Filipenses 2:3 com o suposto estabelecimento de líderes nas Pastorais? (4) Se Paulo realmente ordenou o estabelecimento de líderes em 1 Timóteo e Tito, como conciliar isso com a doutrina de Cristo, o qual ordenou: “Entre vós não será assim?” (Marcos 10:43).

16. Confira em nosso Glossário do Novo Testamento a análise do termo “pastor” clicando aqui.


Escrito por Alan Capriles
Publicado em 14/11/2025

Sobre o autor: Alan Capriles é um seguidor de Cristo sem rótulo denominacional, pesquisador independente do Novo Testamento e da história do cristianismo. Dedica-se a ensinar o evangelho e a compartilhar gratuitamente suas pesquisas, sem vínculo institucional e com respeito a todas as denominações. Ele agradece qualquer forma de apoio para que possa continuar se dedicando integralmente às pesquisas, ao compartilhamento de suas descobertas e ao auxílio gratuito àqueles que desejam congregar de maneira simples e edificante em Cristo.
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